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Trading de energia perde força após calotes e quebra de comercializadoras
Volatilidade, calotes e crédito escasso levam empresas como CPFL e CTG Brasil a rever estratégias no Brasil.
O trading de energia elétrica no Brasil vive um momento de retração sem precedentes. Diante do aumento dos riscos de crédito, da forte volatilidade dos preços e de uma liquidez cada vez mais restrita, empresas do setor estão abandonando ou reduzindo drasticamente suas operações de compra e venda de energia com foco especulativo. O movimento atinge tanto grandes geradoras quanto comercializadoras independentes e redesenha a dinâmica do mercado livre.
Entre as decisões mais emblemáticas estão as da CPFL e da CTG Brasil, duas grandes geradoras controladas por grupos chineses. Ambas optaram por deixar de atuar no chamado trading direcional, estratégia que envolve montar posições compradas ou vendidas para lucrar com oscilações de preços no mercado.
A CPFL informou que, neste momento, mantém sua atuação no mercado livre focada exclusivamente na comercialização de energia própria, oriunda de seu portfólio de geração convencional e renovável. Segundo a empresa, a estratégia reduz a exposição aos riscos atuais do trading e reforça o compromisso com a transição energética e a redução de emissões.
Já a CTG Brasil afirmou que encerrou, na segunda metade de 2024, sua subsidiária dedicada exclusivamente ao trading, em uma decisão estratégica alinhada ao seu posicionamento de longo prazo. A companhia destacou que vem intensificando sua atuação comercial com a entrada em operação de novos projetos solares e eólicos.
O movimento não se restringe às geradoras. Comercializadoras ligadas a grupos como Capitale, Urca e Trinity reduziram significativamente — ou praticamente zeraram — suas operações de trading, voltando-se para outros segmentos do mercado de energia.
A Trinity Energia é um dos casos mais ilustrativos. A empresa, que já chegou a negociar cerca de 2 gigawatts médios por mês, hoje opera apenas 10% desse volume. Segundo o CEO e fundador, João Sanches, a companhia passou a priorizar geração distribuída, além de serviços de gestão e consultoria em energia. “Fomos reduzindo os volumes até chegar a um ponto em que não fazia mais sentido manter estrutura dedicada ao trading. Hoje seguimos apenas os contratos existentes e fazemos ajustes pontuais de portfólio”, afirmou.
Executivos do setor apontam que a retração atual é reflexo direto de um ajuste mais amplo no mercado, intensificado após a quebra de várias comercializadoras nos últimos anos. O episódio mais marcante foi o colapso da Gold Energia, no ano passado, envolvendo um calote bilionário que surpreendeu o setor e provocou uma mudança profunda na gestão de risco de contraparte.
No Brasil, o mercado de trading de energia, que movimenta dezenas de bilhões de reais anualmente, funciona por meio de negociações bilaterais, sem uma contraparte central que permita monitorar a alavancagem dos agentes. Nesse contexto, a reputação tornou-se um ativo crítico, especialmente para comercializadoras independentes.
“Chega um momento em que já não sei quem tem crédito bom e quem não tem”, resumiu um executivo do setor, sob condição de anonimato.
Com a piora do risco de crédito, diversos geradores passaram a evitar, ou suspender totalmente, negociações com comercializadoras independentes. A consequência direta foi o esvaziamento do mercado intermediário, tradicionalmente responsável por garantir liquidez às operações.
Ao mesmo tempo, as próprias comercializadoras reduziram sua exposição ao trading devido à maior volatilidade dos preços, especialmente após mudanças nos modelos matemáticos de precificação adotados no ano passado. Algumas empresas relatam que falhas ou imprecisões nesses modelos tornaram as previsões menos confiáveis e elevaram o risco das operações.
Apesar da saída de empresas relevantes, há quem avalie que a deterioração da liquidez afeta principalmente as casas menores, com maior risco de crédito. “Para grandes geradores e bancos, o mercado segue funcionando normalmente. Quem não tem lastro é que vai enfrentar mais dificuldades. É uma acomodação natural, com a saída dos mais imprudentes”, avaliou um executivo do segmento.
Essa postura mais cautelosa também aparece entre grandes geradoras. A Copel, por exemplo, tem optado por manter mais energia descontratada em seu portfólio, aproveitando o atual patamar elevado dos preços no mercado spot e evitando contratos de longo prazo com valores potencialmente menores. A mesma estratégia chegou a ser adotada pela Axia, maior geradora do país, após a privatização, quando passou a dispor de maior volume de energia para negociação livre.

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