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Rio Grande do Sul desperdiça vento e sol e fica para trás na transição energética

Rio Grande do Sul desperdiça vento e sol e fica para trás na transição energética

Potencial das regiões do litoral e da Campanha segue subaproveitado enquanto investimentos migram para outros estados.

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Apesar do discurso recorrente sobre inovação, transição energética e protagonismo sustentável, o governo do Rio Grande do Sul, sob a gestão de Eduardo Leite, acumula resultados modestos no setor de energia, um dos eixos estratégicos para o desenvolvimento econômico do estado. Na prática, o RS segue parado, com projetos anunciados que não avançaram além das promessas e do papel.

Apesar disso, os números oficiais revelam que o RS está apenas em quinto lugar no ranking de capacidade instalada de energia eólica entre os estados brasileiros, com cerca de 1,83 GW de potência instalada, bem atrás dos líderes Bahia (9,87 GW) e Rio Grande do Norte (8,33 GW). Essa posição mediana indica claramente que o enorme potencial natural não foi convertido em resultados concretos no campo da geração eólica — o que poderia gerar empregos, renda e desenvolvimento regional.

No setor de energia solar, embora o estado figure entre os maiores do país, o desempenho também está aquém do que poderia ser, dado o amplo território e a demanda por inovação. O Rio Grande do Sul figura entre os três estados com maior potência instalada de energia solar, com mais de 2,5 GW em operação, respondendo por cerca de 10% da potência solar instalada no Brasil. Mesmo assim, essa posição é explicada mais por iniciativas de geração distribuída (em telhados e pequenas instalações) do que pela consolidação de grandes parques solares planejados estrategicamente para transformar a matriz energética gaúcha.

No plano nacional, o Brasil vem registrando crescimento acelerado de energias renováveis, com capacidade instalada total de energia solar próxima a 35 GW e eólica cerca de 29 GW, impulsionando o país a um papel de destaque no mix renovável.

Nos últimos anos, o governo estadual apresentou uma série de iniciativas ligadas ao hidrogênio verde (H2V), à expansão de parques eólicos e ao fortalecimento das energias renováveis. No entanto, passados os anúncios, poucos projetos se materializaram em obras, investimentos concretos ou geração efetiva de empregos e renda. O contraste entre o discurso e a execução tem gerado frustração no setor produtivo e entre especialistas em energia.

O hidrogênio verde, apontado pelo próprio governo como uma grande oportunidade para posicionar o Rio Grande do Sul no cenário internacional da transição energética, tornou-se um símbolo dessa estagnação.

Memorandos de entendimento foram assinados, eventos e seminários foram realizados, mas até agora não há empreendimentos estruturantes em operação ou cronogramas claros para implantação de plantas industriais no estado. Enquanto isso, outras regiões do Brasil avançam na atração de investimentos e na consolidação de polos de H2V.

Situação semelhante ocorre com a energia eólica. Embora o RS possua grande potencial, especialmente no sul do estado e na região da Campanha, novos parques eólicos seguem enfrentando entraves regulatórios, lentidão nos processos de licenciamento e falta de articulação entre governo estadual, investidores e órgãos ambientais. O resultado é a perda de competitividade frente a estados do Nordeste, que conseguiram transformar o discurso em projetos concretos e geração de capacidade instalada.

Além disso, o governo estadual falhou em apresentar uma política energética integrada, com metas claras, instrumentos de incentivo e segurança jurídica para atrair investimentos de longo prazo. A ausência de um planejamento consistente impede que o Rio Grande do Sul aproveite plenamente seu potencial em energias renováveis, armazenamento de energia e novas tecnologias associadas à transição energética.

Enquanto o debate público segue marcado por anúncios e intenções, o setor energético gaúcho permanece em compasso de espera. Para especialistas, o desafio do último ano da gestão Eduardo Leite é sair do campo das promessas e transformar o potencial energético do Rio Grande do Sul em projetos reais, capazes de impulsionar o desenvolvimento econômico, gerar empregos e posicionar o estado como protagonista na nova economia de baixo carbono.

Estado apresenta bilhões em potencial, mas segue patinando na entrega de projetos concretos

Durante a COP30, realizada em Belém, o governo do Estado voltou a apostar na estratégia de apresentar o Rio Grande do Sul como um polo promissor da transição energética. Na ocasião, foram divulgadas cerca de R$ 57,6 bilhões em oportunidades e investimentos potenciais, reunidas no chamado Book de Oportunidades e Investimentos em Transição Energética, elaborado pela Invest RS e pela Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), em parceria com a Portos RS.

O material reúne 44 oportunidades atribuídas a 35 empresas e organizações, além de listar um potencial de 2.780 MW em energia hídrica já licenciada e cerca de 10.000 MW adicionais em projetos hídricos mapeados. Segundo o documento, a capacidade total de geração com licenciamento em operação soma 4.281 MW, considerando fontes como biogás, energia hídrica e eólica.

Apesar dos números expressivos apresentados no papel, o anúncio reforça uma crítica recorrente ao setor energético gaúcho: a distância entre o potencial mapeado, os projetos listados e a efetiva materialização desses investimentos. O próprio governo reconhece que o foco da iniciativa está em “organizar, mapear e apresentar” oportunidades, etapa que, embora necessária, não substitui a execução, a atração concreta de capital privado e o início das obras.

Ao comentar o lançamento do material, o governador afirmou: “Temos uma matriz elétrica 85% renovável e somos o quarto maior produtor de energia solar e o quinto de energia eólica do Brasil. Isso mostra que já temos vocação para a transição energética. O que estamos fazendo agora é organizar, mapear e apresentar ao mundo esse potencial, com projetos licenciados e oportunidades concretas para que o investimento privado encontre no Rio Grande do Sul um ambiente de estabilidade, inovação e sustentabilidade”.

Na prática, porém, o ranking citado evidencia justamente o limite dessa estratégia. Mesmo com condições naturais privilegiadas, especialmente no litoral e na Campanha, onde os ventos estão entre os mais competitivos do país, o Rio Grande do Sul permanece fora da liderança nacional em energia eólica e ainda depende majoritariamente da geração distribuída para sustentar sua posição no setor solar. Estados concorrentes conseguiram avançar além do mapeamento e transformar projetos em capacidade instalada, empregos e arrecadação.

O lançamento do book na COP30 reforça a narrativa de potencial e vocação, mas também expõe o principal desafio do setor energético no Rio Grande do Sul: sair do planejamento permanente e transformar oportunidades listadas em investimentos efetivos, capazes de destravar o crescimento econômico e reposicionar o estado no cenário nacional da transição energética.

Ranking 2025 — Energia Solar (Capacidade Instalada por Estado)

O Brasil tem mais de 55 GW de energia solar instalada, sendo a segunda maior fonte da matriz elétrica nacional.

Top estados com maior destaque em capacidade solar (geração centralizada + distribuída):

  1. Minas Gerais: maior capacidade solar em usinas centrais e geração distribuída no país (dados de 2024-2025).
  2. Bahia: tradicional destaque no setor com potência relevante em grandes parques fotovoltaicos.
  3. Piauí: ocupa 3ª posição em potência instalada de usinas solares centralizadas nacionais.
  4. São Paulo: grande mercado consumidor com forte presença de sistemas fotovoltaicos.
  5. Rio Grande do Sul: entre os principais estados com alta participação na geração solar distribuída (cerca de centenas de MW em GD e parques).

Obs.: Rankings exatos por MW/GW por estado podem variar conforme fonte específica, mas os estados acima lideram historicamente em potência solar em termos relativos no Brasil.

Ranking 2025 — Energia Eólica (Capacidade Instalada por Estado)

Em 2024, o Brasil ampliou sua capacidade eólica para cerca de 33,7 GW, e o país ficou em 5º lugar no ranking mundial de energia eólica onshore.

Principais estados na produção de energia eólica no Brasil:

  1. Rio Grande do Norte: líder absoluto em produção e capacidade instalada de energia eólica no país.
  2. Bahia: um dos principais polos eólicos com centenas de parques e elevada produção.
  3. Ceará: terceiro em participação eólica com capacidade significativa no Nordeste.
  4. Piauí: forte presença no setor, frequentemente figura no top 4 em potência eólica.
  5. Rio Grande do Sul: entre os cinco maiores produtores de energia eólica do Brasil, com potencial de expansão menos aproveitado que o Nordeste.

Obs: Diferente da solar, o setor eólico é fortemente concentrado no Nordeste brasileiro devido aos ventos mais intensos e constantes.

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