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Preço do smartphone vira maior barreira para o 5G no Brasil

Preço do smartphone vira maior barreira para o 5G no Brasil

Segundo o CEO da Vivo, Christian Gebara, carga tributária elevada mantém smartphones 5G acima de R$ 1 mil e limita adoção da tecnologia.

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No discurso oficial das operadoras, o Brasil já entrou na era do 5G. A cobertura avança rapidamente, as redes foram instaladas nas principais cidades e a infraestrutura, segundo as próprias empresas, deixou de ser o principal entrave. Mas a realidade do usuário conta outra história: a tecnologia existe, mas permanece fora do alcance de grande parte da população.

Durante o Congresso Mundial de Telefonia Móvel (MWC), em Barcelona, na Espanha, o presidente da Vivo, Christian Gebara, sintetizou o problema de forma direta: “No Brasil, não falta 5G. Falta aparelho 5G”. A frase resume uma distorção estrutural do mercado brasileiro de telecomunicações, a tecnologia chega antes da capacidade de consumo.

Segundo dados apresentados pelo executivo, a operadora já cobre cerca de 67,7% da população com a nova rede, enquanto o 4G atinge aproximadamente 98% dos brasileiros. Ainda assim, apenas 27% da base de clientes possui um smartphone compatível com 5G. A explicação está no preço: o modelo mais barato disponível no país ainda gira em torno de R$ 1 mil.

Em economias de renda média, esse valor não é trivial. Em um país em que boa parte da população vive com renda mensal próxima a um salário mínimo, a troca de aparelho não é uma decisão tecnológica, é uma decisão financeira.

O peso invisível dos impostos

A crítica de Gebara se concentra na elevada carga tributária incidente sobre os smartphones. No Brasil, celulares podem carregar uma combinação de impostos federais e estaduais que inclui IPI, ICMS, PIS e Cofins, além de encargos logísticos e custos de importação. O resultado é um preço final significativamente mais alto do que em diversos mercados emergentes.

A discussão não é nova. O país já viveu experiência semelhante na popularização dos smartphones 3G e 4G, quando programas de desoneração ajudaram a reduzir preços e ampliar a base de usuários. Naquela época, o argumento era o mesmo: reduzir impostos poderia acelerar a inclusão digital e expandir o mercado consumidor.

A diferença agora é que o 5G não é apenas uma evolução de velocidade. A tecnologia é vista globalmente como infraestrutura crítica para aplicações industriais, cidades inteligentes e novos serviços digitais. Quanto mais lenta for sua adoção em massa, maior o risco de o país perder competitividade em setores que dependem de conectividade avançada.

O paradoxo brasileiro do 5G

O caso brasileiro revela um paradoxo recorrente em políticas tecnológicas: investir na rede sem garantir acesso ao dispositivo. As operadoras, pressionadas por compromissos regulatórios e leilões bilionários de espectro, avançaram na instalação da infraestrutura. O governo, por sua vez, apostou na expansão rápida da cobertura como indicador de sucesso da política pública.

Mas a equação do acesso sempre teve três variáveis, rede, aparelho e renda. Ignorar qualquer uma delas cria o fenômeno atual: uma rede moderna subutilizada. Em outras palavras, o país pode estar construindo uma autopista digital onde poucos têm carro para trafegar.

O debate que volta ao Congresso

A fala do presidente da Vivo recoloca no radar uma discussão sensível em Brasília: a redução da carga tributária sobre eletrônicos. A ideia encontra resistência fiscal, especialmente em um momento de pressão por receitas públicas.

Por outro lado, há um argumento econômico relevante. Smartphones não são mais bens de luxo. São ferramentas de trabalho, educação, serviços financeiros e acesso a políticas públicas digitais. A taxação elevada sobre esses dispositivos funciona, na prática, como um imposto sobre a inclusão digital.

Se o Brasil quiser transformar o 5G em motor de produtividade, e não apenas em um símbolo tecnológico, a discussão sobre o preço dos aparelhos precisará sair do discurso das operadoras e entrar definitivamente na agenda de política econômica.

Até lá, o país seguirá com uma rede de última geração e um problema bastante antigo: o custo de acesso à tecnologia.

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