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Leilão inédito de baterias tenta frear desperdício bilionário de energia solar e eólica no Brasil e atrai gigantes chinesas

Leilão inédito de baterias tenta frear desperdício bilionário de energia solar e eólica no Brasil e atrai gigantes chinesas

Disputa marcada para abril promete contratar 2 GW em armazenamento e inaugura nova fase da transição energética no país.

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O Brasil está prestes a dar um passo decisivo na modernização de seu sistema elétrico. Previsto para abril, o primeiro leilão de eletricidade dedicado exclusivamente a sistemas de armazenamento em baterias deve contratar até 2 gigawatts (GW) de capacidade e inaugurar um novo mercado no país, com potencial para movimentar bilhões em investimentos e atrair alguns dos maiores grupos globais de tecnologia e energia.

O leilão, organizado pelo Ministério de Minas e Energia, já desperta forte interesse internacional. Gigantes chinesas como BYD, Sungrow, Huawei Digital Power, CATL, Envision, HyperStrong e Hithium Energy Storage aparecem entre as principais candidatas, ao lado de nomes como Tesla, Petrobras e Axia Energia. A disputa deve marcar um novo capítulo na crescente presença da China no setor elétrico brasileiro, que já concentra quase metade dos investimentos chineses realizados no país desde 2007.

Entre 2007 e 2024, projetos de energia responderam por cerca de 45% dos aportes da China no Brasil, somando US$ 35 bilhões, segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China. Agora, o armazenamento em baterias surge como a próxima fronteira dessa expansão.

A corrida brasileira acompanha um movimento mais amplo na América Latina. Países como Chile, Argentina e México já iniciaram programas de contratação de baterias em escala de utilidade pública, buscando reforçar a confiabilidade de sistemas cada vez mais dependentes de fontes renováveis. No Chile, a expansão planejada para os próximos cinco anos é considerada uma das mais ambiciosas da região. A Argentina já contratou 667 MW em seu primeiro leilão, enquanto o México projeta ao menos 2,2 GW de capacidade em armazenamento em seu plano de expansão.

O avanço das baterias responde a um problema crescente do setor: os cortes de geração renovável. Com a rápida expansão da energia solar e eólica, usinas são frequentemente obrigadas a reduzir produção quando não há demanda suficiente. Em 2025, o Brasil deixou de aproveitar cerca de 26% de sua geração solar e 19% da eólica por esse motivo, o que representou perdas estimadas em R$ 7 bilhões.

Nesse cenário, os sistemas de armazenamento passam a desempenhar papel estratégico, ao permitir que a energia excedente seja estocada e devolvida à rede nos horários de pico, aumentando a eficiência do sistema e reduzindo desperdícios.

Segundo estimativas da BloombergNEF, o mercado brasileiro pode adicionar cerca de 1,3 GW por ano em capacidade de baterias até 2030, ritmo que colocaria o país entre os principais polos emergentes do setor no mundo.

As empresas chinesas entram na disputa com vantagens relevantes. Líderes globais na fabricação de baterias e grandes investidoras em energias renováveis, elas acumulam experiência na integração desses sistemas às redes elétricas. “Já existe um número expressivo de companhias chinesas no Brasil que conhecem bem o mercado de eletricidade e se sentem confortáveis em expandir sua atuação para operar sistemas de armazenamento”, avalia Larissa Wachholz, sócia da consultoria Vallya.

Ainda assim, a concorrência promete ser acirrada. Empresas interessadas em atuar como integradoras deverão apresentar propostas completas, combinando hardware, software e sistemas de controle, enquanto fornecedores de equipamentos tendem a formar alianças estratégicas. Independentemente do resultado, especialistas avaliam que os fabricantes chineses devem dominar o fornecimento de componentes, dada sua posição quase hegemônica na cadeia global de baterias.

“A China controla praticamente toda a cadeia, da fabricação das células aos insumos necessários para produzi-las”, resume Markus Vlasits, presidente da Associação Brasileira de Armazenamento de Energia.

Mais do que uma licitação, o leilão de abril representa um divisor de águas para o setor elétrico brasileiro, abrindo espaço para uma nova indústria, maior segurança energética e uma transição mais eficiente rumo a uma matriz cada vez mais limpa. (Matéria original divulgada pela Bloomberg)

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