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Gigantes chinesas miram leilão de baterias no Brasil enquanto debate sobre substituição de térmicas divide setor
Disputa por reserva de capacidade prevista para abril de 2026 atrai fabricantes globais, mas especialistas divergem sobre papel estrutural dos sistemas de armazenamento.
O debate sobre o papel dos sistemas de armazenamento em baterias (BESS, na sigla em inglês) no setor elétrico brasileiro ganhou novo fôlego às vésperas do leilão de reserva de capacidade programado pelo governo para abril de 2026. O certame, que poderá contratar potência a partir de baterias, passou a atrair o interesse de grandes fabricantes internacionais, entre eles, gigantes chinesas como a Sungrow, Huawei e BYD que veem no Brasil um dos mercados mais promissores da América Latina.
Estudos que circulam no mercado indicam que, em determinados cenários, o preço-teto para contratação de baterias poderia variar entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,7 milhão por MW ao ano. No caso das usinas termelétricas, os valores podem alcançar R$ 2,9 milhões por MW ao ano, conforme parâmetros estabelecidos para o leilão de capacidade previsto para março.
A diferença numérica alimentou interpretações de que os BESS poderiam substituir parte das térmicas com ganhos econômicos relevantes. A leitura, no entanto, está longe de ser consenso.
Especialistas ouvidos pelo setor alertam que a comparação direta de preços por MW.ano considera apenas a disponibilidade de potência, e não o papel estrutural de cada fonte na matriz elétrica. “Baterias não geram energia, apenas deslocam no tempo aquilo que já foi produzido. Em cenários de escassez prolongada, o desafio não é mover energia ao longo do dia, mas ter energia firme disponível”, resume um executivo do segmento de geração.
O Brasil opera sob forte dependência hidrelétrica e crescente participação de fontes intermitentes, como solar e eólica. Em períodos de hidrologia adversa, que podem se estender por semanas ou meses, o sistema enfrenta déficit estrutural de oferta, situação na qual as térmicas funcionam como seguro energético.
Embora os BESS sejam apontados como solução para reduzir o chamado curtailment, desperdício de energia renovável, ao armazenar excedentes diurnos e liberá-los à noite, o benefício depende de fatores regionais, perfil de demanda, estratégia operacional das distribuidoras e maturidade tecnológica dos equipamentos.
Ainda assim, o potencial de mercado é significativo. O avanço regulatório e a previsão do leilão de 2026 colocaram o Brasil no radar de grandes grupos asiáticos, especialmente chineses, que lideram a cadeia global de baterias e já dominam projetos de larga escala em mercados como China, Estados Unidos e Chile.
A movimentação internacional ocorre em meio a uma discussão mais ampla sobre a arquitetura futura do sistema elétrico brasileiro. Defensores das baterias argumentam que flexibilidade, resposta rápida e serviços ancilares, como controle de frequência e suporte de tensão, ganham relevância em uma matriz cada vez mais renovável.
Já críticos afirmam que reduzir o papel das térmicas com base apenas em comparações monetárias pontuais pode gerar falsa sensação de segurança. “O sistema precisa funcionar nas situações extremas, não apenas no dia típico”, avalia um consultor do setor. “Secas severas e déficits prolongados de renováveis exigem geração contínua.”
A decisão que será tomada nos próximos leilões tende a definir o equilíbrio entre armazenamento e geração térmica na próxima década. Até lá, o Brasil se torna palco de uma disputa tecnológica e estratégica que envolve regulação, segurança energética e bilhões de reais em investimentos.

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