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Escalada no Golfo expõe vulnerabilidade da matriz fóssil e pressiona transição energética

Escalada no Golfo expõe vulnerabilidade da matriz fóssil e pressiona transição energética

Escalada no Golfo reforça, mais uma vez, que fontes como solar e eólica deixaram de ser alternativa para se tornar necessidade estratégica (por Políbio F Braga).

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A guerra no Golfo, sem qualquer previsão concreta de término, não apenas amplia o risco de uma convulsão militar de grandes proporções. Ela também joga na cara do mundo uma verdade incômoda, que há décadas os interesses do petróleo tentam adiar: a era dos combustíveis fósseis está moral, econômica e estrategicamente esgotada.

Toda vez que uma guerra explode no coração das rotas globais de energia, o planeta inteiro vira refém do barril. Sobem os preços, estremecem os mercados, aumenta a inflação, encarece o transporte, pressiona a comida, desorganiza cadeias produtivas e, no fim, quem paga a conta é sempre a população. O petróleo, vendido por tanto tempo como símbolo de força e segurança, se revela de novo aquilo que realmente é: uma dependência cara, suja, instável e submetida à chantagem permanente da geopolítica.

Não existe segurança energética real quando o abastecimento mundial depende de regiões conflagradas, de estreitos sob ameaça militar e de combustíveis que, além de poluentes, são incapazes de oferecer previsibilidade. O petróleo não sustenta estabilidade. O petróleo produz vulnerabilidade. O carvão, por sua vez, já deveria estar politicamente constrangido a ocupar lugar de passado, não de “reserva estratégica” para tempos de crise.

A guerra atual apenas acelera uma conclusão inevitável: o futuro pertence às energias renováveis e alternativas. Solar, eólica, biometano e hidrogênio verde não são mais apenas opções técnicas ou bandeiras ambientais. São imperativos econômicos, industriais e civilizatórios. Quem não entender isso agora ficará preso a um modelo energético decadente, caro e cada vez mais incompatível com a lógica do século 21.

O mais grave é que essa dependência dos fósseis não persiste por falta de solução. Persiste por atraso político, covardia regulatória e lentidão de mercado. O mundo já sabe para onde precisa ir, mas ainda caminha com a hesitação típica de quem lucrou demais com o velho modelo e teme perder poder na transição. Enquanto isso, a conta ambiental cresce, a conta social cresce e a conta econômica explode a cada novo míssil disparado no Oriente Médio.

O Brasil, nesse cenário, não tem o direito de agir como espectador. O país dispõe de sol em abundância, ventos altamente competitivos, enorme capacidade de produção de biometano e potencial concreto para liderar o hidrogênio verde. Insistir em manter a economia presa à lógica fóssil, quando o país tem vocação natural para liderar a nova matriz energética, é mais do que desperdício. É atraso estratégico.

Já passou da hora de a comunidade internacional, os governos, os órgãos reguladores e os setores produtivos agirem com seriedade para baratear as commodities ligadas às energias renováveis. É preciso escala, infraestrutura, crédito, previsibilidade regulatória, investimento em tecnologia e coordenação global. Não basta defender transição energética em discurso protocolar de conferência. É preciso transformar a transição em prioridade econômica concreta.

E há uma contradição quase ridícula nisso tudo. Quando a humanidade lança satélites ao espaço, mantém estações espaciais em órbita e projeta estruturas tecnológicas como data centers espacias por I.A, cada vez mais sofisticadas fora da Terra, não recorre a carvão nem a petróleo para mantê-las funcionando. Usa energia solar. No ambiente mais hostil conhecido, a escolha já foi feita pela eficiência, pela disponibilidade e pela lógica tecnológica. Aqui embaixo, no entanto, seguimos aceitando que economias inteiras permaneçam acorrentadas a fontes caras, poluentes e vulneráveis à guerra.

A pergunta não é mais se o petróleo está perdendo centralidade histórica. Isso já começou. A pergunta é por que o mundo ainda insiste em adiar uma ruptura que se tornou racional, urgente e inevitável.

Quantos conflitos mais serão necessários? Quantos choques no preço da energia? Quantas crises climáticas? Quantas demonstrações de fragilidade geopolítica ainda serão ignoradas até que se admita o óbvio?

O petróleo pertence ao século passado. O carvão, mais ainda. O futuro é renovável, e resistir a isso já não é prudência, é cegueira.

*por Políbio F Braga (foto),

Jornalista com mais de 30 anos de atuação no mercado de comunicação corporativa especializado nos mercados de telecom e energia. É diretor da PBcom&press Assessoria de Imprensa.

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