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Energia sobrando leva Engie a estudar mineração de Bitcoin no Brasil

Energia sobrando leva Engie a estudar mineração de Bitcoin no Brasil

Ideia é transformar cortes de geração em nova fonte de receita no maior parque solar da empresa no mundo.

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A dificuldade de escoar energia renovável no Brasil começa a produzir soluções que, até pouco tempo atrás, soariam improváveis. A companhia francesa Engie estuda utilizar parte da energia excedente gerada em seu maior parque solar em operação no mundo para abastecer sistemas de mineração de Bitcoin, numa tentativa de reduzir perdas e criar novas fontes de receita.

O plano, ainda em fase inicial de estudos, envolve direcionar eletricidade que hoje não consegue ser injetada no sistema elétrico por limitações de transmissão para data centers de criptomoedas ou grandes sistemas de armazenamento de energia. Segundo Eduardo Sattamini, presidente da Engie Brasil Energia, a proposta não deve sair do papel no curto prazo, mas reflete um problema estrutural que tende a se agravar.

A discussão ganhou força após a entrada em operação comercial do complexo solar Assú Sol, no interior do Rio Grande do Norte. O empreendimento se tornou o maior parque solar do portfólio global da companhia e um símbolo dos desafios enfrentados pelo setor renovável no país.

Composto por 16 usinas fotovoltaicas e capacidade instalada de 753 MW, o complexo recebeu investimentos da ordem de R$ 3,3 bilhões e foi totalmente comissionado em fevereiro de 2026. A produção anual é suficiente para abastecer uma cidade com cerca de 850 mil habitantes. Ainda assim, parte relevante dessa energia acaba sendo desperdiçada.

Gargalo vira custo para renováveis

O problema está nos chamados cortes de geração, ou curtailments, que ocorrem quando a rede elétrica não consegue absorver toda a energia produzida. Com a expansão acelerada de parques solares e eólicos, especialmente no Nordeste, e o avanço mais lento da infraestrutura de transmissão, o fenômeno deixou de ser pontual e passou a integrar a rotina de grandes projetos.

Para os geradores, o impacto é direto: energia produzida, mas não vendida. Para empresas como a Engie, a busca por usos alternativos para essa eletricidade passa a ser uma questão econômica, não apenas tecnológica.

A mineração de Bitcoin surge nesse contexto como uma carga flexível, capaz de operar de forma contínua e próxima à fonte de geração. Ainda assim, a empresa afirma que o projeto depende de análises adicionais, do desenvolvimento de infraestrutura específica e da identificação de parceiros dispostos a assumir esse tipo de operação.

Portfólio cresce mais rápido que a rede

No Brasil, a Engie opera uma capacidade instalada totalmente renovável de 15,7 GW, distribuída entre usinas hidrelétricas, parques eólicos onshore e projetos solares. O grupo também controla cerca de 3.200 km de linhas de transmissão e 22 subestações, mas reconhece que o ritmo de expansão da rede não acompanhou o avanço da geração.

Em dezembro de 2025, outro projeto emblemático entrou em operação comercial plena: o complexo eólico Serra do Assuruá, em Gentio do Ouro, no interior da Bahia. Com capacidade de 846 MW, trata-se do maior parque eólico onshore da Engie no mundo.

A combinação de grandes projetos renováveis e restrições sistêmicas expõe um paradoxo do setor elétrico brasileiro: o país acelera a transição energética, mas ainda convive com gargalos que limitam o aproveitamento pleno dessa energia.

Nesse cenário, propostas como a mineração de criptomoedas deixam de ser apenas apostas exóticas e passam a funcionar como termômetro de um sistema que produz mais eletricidade limpa do que consegue consumir ou transportar.

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