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Armazenamento de energia no Brasil: por que a nacionalização da cadeia de BESS é decisiva para a competitividade

Armazenamento de energia no Brasil: por que a nacionalização da cadeia de BESS é decisiva para a competitividade

Por que o debate sobre conteúdo local em sistemas de armazenamento é central para a competitividade, a segurança energética e a política industrial brasileira. (por Rafael Girardi D'Angelo)

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Participei recentemente do seminário do BNDES sobre armazenamento de energia e deixei o evento com uma convicção ainda mais forte: se o Brasil pretende escalar sistemas de armazenamento em baterias (BESS) de forma competitiva, o debate sobre o grau de nacionalização da cadeia produtiva precisa deixar de ser periférico e passar a ocupar o centro da estratégia do setor.

Ao longo do encontro, representantes de diferentes segmentos do mercado trouxeram desafios que refletem uma realidade já observada globalmente. Um dado, em especial, sintetiza bem o tamanho do problema: pelos critérios atuais de credenciamento do BNDES, apenas um fabricante de baterias conseguiu atingir a Fase 2 de nacionalização. Esse número evidencia que a dependência de importações ainda é um entrave concreto para a verticalização industrial do armazenamento de energia no Brasil e limita, na prática, o acesso a instrumentos de financiamento mais competitivos.

O contexto internacional ajuda a dimensionar a importância desse debate. O estudo Battery 2035: Building New Advantages, da McKinsey, aponta que a indústria global de baterias, incluindo aplicações em sistemas BESS, vive um ponto de inflexão. A demanda anual deve crescer de forma acelerada até 2035, acompanhada por recordes sucessivos de instalações de armazenamento. Apesar disso, a capacidade produtiva segue fortemente concentrada na Ásia, o que tem levado outras regiões a adotarem políticas industriais ativas para reduzir dependências e aumentar a resiliência de suas cadeias de suprimentos.

Nos Estados Unidos, a política industrial caminha no sentido de incentivar a produção doméstica de baterias por meio de créditos fiscais e marcos regulatórios que estimulam não apenas a montagem final, mas também o processamento de materiais, a fabricação de células e o desenvolvimento tecnológico local. A lógica é clara: reduzir riscos geopolíticos, garantir segurança de fornecimento e criar vantagens competitivas de longo prazo. Na Europa, o movimento é semelhante, com bilhões de euros sendo direcionados ao financiamento de gigafactories, centros de inovação e capacidades industriais avançadas, em uma estratégia coordenada entre governos e setor privado para alcançar metas de conteúdo local e autonomia tecnológica.

Esse movimento de regionalização da cadeia de baterias não é apenas uma resposta à concentração da oferta global. Trata-se de uma escolha estratégica que combina competitividade, segurança energética e política industrial, exatamente os mesmos temas que estiveram no centro das discussões no seminário do BNDES.

No Brasil, a realidade ainda é marcada por forte dependência externa. Grande parte dos componentes críticos de um sistema BESS, como células, eletrônica de potência, sistemas de gerenciamento de baterias (BMS), sistemas térmicos e estruturas, continua sendo importada. Essa dependência impacta diretamente o custo final dos projetos, alonga prazos de entrega, aumenta a exposição cambial e limita o desenvolvimento tecnológico local. Em um mercado que busca escala e previsibilidade, esses fatores se traduzem em perda de competitividade.

Ao mesmo tempo, o país dispõe de ativos relevantes que não podem ser ignorados. O Brasil possui recursos minerais estratégicos, capacidade de beneficiamento inicial e um parque industrial que pode ser habilitado para etapas mais avançadas da cadeia de valor. A questão central não é se o país tem potencial, mas se haverá uma estratégia clara para transformar esse potencial em capacidade produtiva real.

Trazer mais elos da cadeia de BESS para o Brasil não deve ser visto apenas como uma política industrial clássica, mas como uma decisão estratégica para a competitividade do setor elétrico e da transição energética. Maior conteúdo local significa redução de custos sistêmicos ao longo do tempo, geração de empregos qualificados, estímulo à inovação, fortalecimento de fornecedores nacionais e criação de escala para atender não apenas o mercado doméstico, mas também outros países da região.

No entanto, também é preciso reconhecer que não se constrói uma cadeia industrial apenas por exigência regulatória. Exigir nacionalização sem oferecer instrumentos adequados de financiamento, apoio tecnológico e previsibilidade regulatória tende a gerar distorções e atrasos. Por isso, o papel das políticas públicas é central. Será necessária uma atuação coordenada que estimule a fabricação local de componentes críticos, apoie novos entrantes industriais, incentive parcerias tecnológicas e joint ventures e estabeleça políticas de longo prazo que deem segurança a investidores e fabricantes.

Nesse cenário, o BNDES pode e deve assumir protagonismo. Seus instrumentos têm potencial para apoiar não apenas projetos finais de armazenamento, mas toda a cadeia produtiva, do processamento de materiais à integração de sistemas completos. Essa visão sistêmica é fundamental para que o armazenamento de energia deixe de ser apenas um mercado importador de tecnologia e passe a ser um vetor de desenvolvimento industrial no Brasil.

Se o objetivo é construir um setor de armazenamento robusto, competitivo e alinhado às necessidades da transição energética, importar tecnologia não será suficiente. Será preciso desenvolvê-la localmente, com profundidade, escala e uma política industrial clara.

A reflexão que fica é direta: qual elo da cadeia de BESS o Brasil deveria priorizar agora para acelerar sua competitividade no cenário global?

 

*por Rafael Girardi D'Angelo (foto),

Engenheiro Civil pela UFRJ e com O Mestrado Profissional em Economia e Finanças (MFEE) pela Fundação Getúlio Vargas.

Diretor das Usinas Brasil Solar

 

**Referência:
McKinsey & Company – Battery 2035: Building New Advantages | https://www.mckinsey.com/features/mckinsey-center-for-future-mobility/our-insights/battery-2035-building-new-advantages.

***No Conecta Energia você também fica por dentro dos principais debates do setor, como o workshop "Perspectiva de Negócios em Armazenamento de Energia no Brasil", promovido pelo BNDES em parceria com o setor energético, que reuniu especialistas e líderes para discutir as tendências, modelos de negócio e soluções de crédito para o armazenamento de energia no país: https://www.eventosbndes.com.br/armazenamentodeenergia/

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