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Brasil corre risco de perder protagonismo energético, afirma Nilo Quaresma Neto, CEO da EPCOR Energia

Brasil corre risco de perder protagonismo energético, afirma Nilo Quaresma Neto, CEO da EPCOR Energia

Em entrevista exclusiva ao Conecta News, executivo defende armazenamento de energia, modernização do sistema elétrico e alerta para os impactos da expansão térmica fóssil no futuro da competitividade brasileira.

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O avanço acelerado das energias renováveis no Brasil colocou o país em posição estratégica na corrida global pela transição energética. No entanto, decisões recentes do setor elétrico reacenderam um debate importante sobre qual modelo energético o Brasil pretende priorizar nas próximas décadas.

A contratação de quase 19 GW de potência no recente LRCAP, com predominância de usinas térmicas fósseis movidas a gás natural e carvão, trouxe preocupações relevantes para investidores, geradores renováveis e especialistas do setor. Enquanto isso, mercados internacionais ampliam investimentos em armazenamento de energia, redes inteligentes e sistemas híbridos sustentados por fontes limpas.

Para discutir os desafios e oportunidades desse novo cenário, o Valor conversou com Nilo Quaresma Neto, Diretor de Energia da APTEL e CEO da EPCOR Energia, empresa especializada em soluções energéticas e infraestrutura para o setor elétrico. Na entrevista, o executivo fala sobre o crescimento do curtailment, o papel estratégico das baterias, os impactos da contratação térmica sobre os investimentos renováveis e o risco de o Brasil perder protagonismo justamente em um dos setores onde possui maior vantagem competitiva global.

“O Brasil precisa decidir se quer liderar a nova economia energética mundial”

Conecta: O recente LRCAP reacendeu o debate sobre o futuro da matriz elétrica brasileira. Como o senhor avalia a forte contratação de térmicas fósseis?

Nilo Quaresma Neto: O setor elétrico precisa, obviamente, garantir confiabilidade e segurança operacional para o SIN. Isso é inquestionável. O problema é quando a solução escolhida cria uma dependência estrutural de tecnologias caras, poluentes e desalinhadas com a tendência global.

O mundo inteiro está migrando para modelos mais flexíveis, digitais e descarbonizados. Enquanto isso, o Brasil corre o risco de contratar contratos térmicos de longo prazo justamente no momento em que armazenamento, baterias e sistemas híbridos ganham escala e competitividade internacional.

Hoje, o desafio não é mais apenas gerar energia. O Brasil já demonstrou enorme competitividade em eólica e solar. O verdadeiro desafio é flexibilidade operacional, armazenamento e inteligência de sistema.

Conecta: O senhor acredita que o país está atrasado na discussão sobre armazenamento de energia?

Nilo Quaresma Neto: Sem dúvida. O armazenamento deixou de ser tecnologia do futuro. Ele já é realidade nos principais mercados globais. Os sistemas BESS conseguem entregar resposta rápida ao sistema, estabilidade operacional, deslocamento de energia para horários de ponta, redução de curtailment e serviços ancilares. Além disso, aumentam significativamente o aproveitamento das renováveis.

O mais importante é que o armazenamento não concorre com a energia renovável. Ele potencializa as renováveis. Quando você combina solar, eólica, baterias e transmissão eficiente, você cria um sistema muito mais moderno, resiliente e competitivo.

Conecta: Existe risco de o Brasil perder competitividade energética internacional?

Nilo Quaresma Neto: Existe, e esse talvez seja o maior ponto de atenção hoje. O Brasil possui uma vantagem natural gigantesca. Temos alguns dos melhores recursos eólicos e solares do planeta, capacidade técnica reconhecida mundialmente e potencial enorme para atrair indústria verde, data centers, inteligência artificial e hidrogênio renovável.

Mas essa janela histórica não ficará aberta para sempre. Os países que estruturarem rapidamente ambientes energéticos modernos, previsíveis e descarbonizados irão concentrar os grandes investimentos globais da próxima década.

Energia limpa deixou de ser apenas pauta ambiental. Agora é tema econômico, geopolítico e industrial.

Conecta: Como o avanço das térmicas impacta os investimentos renováveis?

Nilo Quaresma Neto: O impacto é direto. Cada contratação térmica de longa duração ocupa margem de transmissão, reduz espaço para novos projetos renováveis e aumenta a percepção de insegurança regulatória.

Hoje o mercado já enfrenta curtailment crescente, dificuldades de financiamento, excesso de energia em determinados submercados e gargalos importantes de transmissão.

Quando o sistema sinaliza preferência por soluções fósseis de longo prazo, muitos investidores passam a postergar decisões estratégicas. Isso desacelera justamente o setor onde o Brasil é mais competitivo globalmente.

Conecta: Qual deveria ser a prioridade do planejamento energético brasileiro nos próximos anos?

Nilo Quaresma Neto: O Brasil precisa acelerar quatro pilares fundamentais:

  1. expansão renovável.
  2. armazenamento em larga escala.
  3. modernização da transmissão e digitalização da rede.
  4. inteligência operacional, incluindo resposta da demanda e sistemas mais flexíveis.

O mundo está caminhando para modelos híbridos e descentralizados. Renováveis associadas a baterias conseguem entregar estabilidade, potência, previsibilidade e segurança energética com baixíssima emissão de carbono.

Esse é o caminho natural da transição energética global.

Conecta: O setor elétrico brasileiro ainda é referência internacional?

Nilo Quaresma Neto: Sem dúvida. O Brasil sempre foi reconhecido mundialmente pela qualidade da sua engenharia e pelo planejamento energético. Nos últimos anos, as renováveis foram fundamentais para evitar crises ainda maiores no país, reduzir despacho térmico e ampliar competitividade no mercado livre.

A expansão eólica e solar mostrou que o Brasil possui capacidade técnica e operacional para liderar essa transformação. Agora precisamos atualizar a lógica do planejamento.

O futuro do setor elétrico não será baseado apenas em geração centralizada. Será baseado em flexibilidade, armazenamento, inteligência energética e integração digital.

Talvez a principal discussão hoje não seja apenas sobre megawatts contratados. A verdadeira discussão é sobre qual país queremos construir energeticamente para as próximas gerações.

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